Da próstata aos rins, da fertilidade à disfunção erétil: a urologia vai muito além do exame que ainda provoca vergonha em muitos homens. Em entrevista ao Conexão Três Pontas, especialista explica quando procurar ajuda, quais sinais não devem ser ignorados e por que prevenção pode fazer diferença entre um diagnóstico precoce e uma doença descoberta tarde demais.
Por trás de muitas doenças que atingem os homens existe um problema que não aparece em exames de sangue: o hábito de adiar o cuidado com a própria saúde.
Vergonha, preconceito, medo de descobrir uma doença ou simplesmente a velha ideia de que “homem só vai ao médico quando está doente” ainda afastam muitos brasileiros dos consultórios.
E esse comportamento pode ter consequências importantes.
No Brasil, o câncer de próstata continua sendo o tumor mais incidente entre os homens, desconsiderando o câncer de pele não melanoma. Para o triênio 2026–2028, o INCA estima 77.920 novos casos por ano.
Mas a próstata está longe de ser o único assunto quando se fala em urologia.
Cálculos renais, infecções urinárias, tumores de rim, bexiga e testículo, incontinência urinária, alterações da função sexual, infertilidade masculina, fimose e diversas outras condições também fazem parte da área de atuação do urologista.
Para esclarecer dúvidas e levar informação de utilidade pública à população, o Conexão Três Pontas conversou com o Dr. Thales Figueiredo, médico urologista, que aborda os principais problemas que afetam a saúde masculina e explica por que procurar atendimento não deve ser motivo de vergonha.

CONEXÃO TRÊS PONTAS — Dr. Thales, afinal, o que faz um urologista?
Dr. Thales Figueiredo: O urologista é o médico responsável pela saúde do trato urinário de homens e mulheres e do sistema reprodutor masculino.
Além das doenças da próstata, tratamos cálculos renais, infecções urinárias, câncer de rim, bexiga, próstata e testículo, incontinência urinária, disfunção erétil, infertilidade masculina, fimose e diversas outras condições.
É uma especialidade muito mais ampla do que a maioria das pessoas imagina.
O homem ainda procura o médico tarde demais?
Dr. Thales: Muitos homens foram educados a acreditar que procurar um médico é sinal de fraqueza ou que só devem buscar ajuda quando a doença já está causando dor intensa.
Esse comportamento faz com que problemas que poderiam ser tratados de forma simples sejam descobertos em fases mais avançadas.
Na maioria das doenças, quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de cura e menores os impactos na qualidade de vida.
CÂNCER DE PRÓSTATA: QUEM PRECISA FICAR MAIS ATENTO?
O câncer de próstata merece atenção especial. Segundo a estimativa mais recente do INCA, 77.920 novos casos por ano são esperados no Brasil no período de 2026 a 2028. Entre os homens, o tumor representa 30,5% dos casos novos de câncer, excluindo os tumores de pele não melanoma.
Dr. Thales: Os principais fatores de risco são a idade, o histórico familiar e a ascendência negra. Homens sem fatores de risco devem conversar com o urologista sobre o rastreamento a partir dos 50 anos. Já aqueles com maior risco, como quem tem pai ou irmão com câncer de próstata, ou homens negros, devem iniciar essa avaliação por volta dos 45 anos.
A decisão deve ser individualizada, após orientação médica.
Um detalhe importante: A orientação sobre rastreamento não deve ser interpretada como uma regra automática para todos os homens. O Ministério da Saúde atualmente não recomenda o rastreamento populacional de homens sem sinais ou sintomas e orienta que a decisão seja individualizada, considerando benefícios e possíveis riscos.
E O FAMOSO EXAME DE TOQUE? ELE AINDA É NECESSÁRIO?
Dr. Thales: O exame de toque continua tendo um papel importante, pois permite avaliar alterações que o PSA sozinho pode não identificar.
Atualmente, a decisão sobre sua realização é individualizada e leva em consideração a idade, os fatores de risco e os resultados dos exames.
O PSA é uma ferramenta muito útil, mas não substitui completamente a avaliação clínica quando ela é indicada.
O próprio Ministério da Saúde destaca que PSA e toque retal são ferramentas de investigação, e que a confirmação do câncer, quando indicada, é feita por biópsia.
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DISFUNÇÃO ERÉTIL PODE SER UM ALERTA PARA O CORAÇÃO
Um dos temas que ainda cercam a saúde masculina de silêncio é a dificuldade de ereção.
E, segundo o Dr. Thales, o problema não deve ser encarado apenas como uma questão sexual.
Dr. Thales: A disfunção erétil muitas vezes é um alerta para a saúde geral. Ela pode ser um dos primeiros sinais de doenças como diabetes, hipertensão, colesterol elevado e problemas cardiovasculares.
Em alguns casos, surge anos antes de um infarto ou AVC. Por isso, investigar a causa é tão importante quanto tratar o sintoma.
Ou seja: um problema na vida sexual pode ser o primeiro sinal de que existe algo acontecendo em outras áreas do organismo.
SANGUE NA URINA? NÃO IGNORE.
Alguns sintomas são frequentemente normalizados, principalmente quando aparecem gradualmente.
Dr. Thales: Sangue na urina, dor intensa nas costas ou ao urinar, dificuldade para urinar, interrupção do fluxo urinário, infecções urinárias de repetição, aumento importante da frequência urinária, perda involuntária de urina e qualquer nódulo nos testículos merecem avaliação médica.
Quanto mais cedo esses sintomas forem investigados, maiores são as chances de um tratamento eficaz.
O Ministério da Saúde também relaciona ao câncer de próstata sintomas como dificuldade para urinar, redução do jato, demora para iniciar ou terminar a micção, aumento da frequência urinária e sangue na urina — embora esses sinais também possam ocorrer em doenças benignas da próstata.
RIM, BEXIGA E TESTÍCULO TAMBÉM EXIGEM ATENÇÃO
Nem todos os tumores urológicos apresentam sintomas claros nas fases iniciais.
Segundo o especialista, alterações como sangue na urina, dor lombar persistente, mudanças urinárias, aumento ou nódulo no testículo precisam ser avaliadas.
Dr. Thales: Muitas vezes esses tumores não causam sintomas nas fases iniciais. Quando aparecem, os sinais podem incluir sangue na urina, dor lombar persistente e aumento do volume abdominal no câncer de rim; sangue na urina e alterações urinárias no câncer de bexiga; e nódulo ou aumento do testículo no câncer testicular.
Procurar atendimento ao perceber qualquer alteração é a melhor forma de aumentar as chances de cura.
PEDRA NOS RINS: A HIDRATAÇÃO FAZ DIFERENÇA
Quem já teve cálculo renal dificilmente esquece a dor.
E hábitos cotidianos podem influenciar o risco.
Dr. Thales: A baixa ingestão de água, o consumo excessivo de sal, alimentos ultraprocessados, obesidade e sedentarismo estão diretamente relacionados ao aumento dos casos de cálculos renais.
Além disso, o clima quente favorece a desidratação, aumentando o risco de formação das pedras.
A prevenção começa com boa hidratação e hábitos de vida saudáveis.
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ANABOLIZANTES E MEDICAMENTOS PARA DESEMPENHO SEXUAL: CUIDADO
A busca por desempenho, aparência física ou melhora da função sexual também pode levar homens a utilizar substâncias sem acompanhamento profissional.
Dr. Thales: O uso de anabolizantes sem indicação médica pode reduzir a produção natural de testosterona, causar infertilidade, diminuir o tamanho dos testículos e aumentar o risco de problemas cardiovasculares e hepáticos.
Medicamentos para ereção também não devem ser usados sem orientação, pois podem mascarar doenças importantes e causar efeitos adversos.
Todo tratamento deve ser acompanhado por um médico.
SAÚDE MASCULINA NÃO TERMINA NA PRÓSTATA
A entrevista deixa uma mensagem central: urologia não é sinônimo de próstata.
O especialista atua em uma área ampla, que envolve desde o sistema urinário até questões relacionadas à sexualidade, fertilidade e saúde reprodutiva masculina.
E existe outro ponto fundamental: prevenção não significa necessariamente fazer exames indiscriminadamente.
Significa conhecer os próprios fatores de risco, observar mudanças no organismo, procurar orientação profissional e tomar decisões médicas individualizadas.
O próprio Ministério da Saúde ressalta que exames de rotina para câncer de próstata em homens sem sintomas envolvem benefícios e riscos, razão pela qual a decisão deve ser discutida com um profissional de saúde.
A MENSAGEM DO ESPECIALISTA AOS HOMENS
Conexão Três Pontas: Se você pudesse dar apenas um conselho aos homens que estão adiando uma consulta por vergonha, medo ou preconceito, qual seria?
Dr. Thales Figueiredo: Meu conselho é simples: não espere a doença dar sinais para cuidar da sua saúde.
A consulta com o urologista é um momento de prevenção, orientação e diagnóstico precoce, sempre com respeito e profissionalismo.
Em muitos casos, identificar uma doença no início significa tratamentos menos agressivos, maiores chances de cura e muitos anos a mais de vida com qualidade.
Cuidar da saúde é um ato de responsabilidade consigo mesmo e com quem você ama.
UM PROFISSIONAL A SERVIÇO DA SAÚDE E DA INFORMAÇÃO
Ao levar essas informações ao público, o Dr. Thales Figueiredo também demonstra uma característica fundamental da medicina contemporânea: o compromisso não apenas com o tratamento, mas com educação, prevenção e orientação da população.
Em uma área historicamente cercada por tabus, falar de saúde masculina com clareza, respeito e informação qualificada ajuda a quebrar preconceitos e pode estimular homens a procurar atendimento antes que um problema se transforme em uma doença mais grave.
Mais do que tratar doenças, o trabalho do urologista pode significar preservar qualidade de vida, sexualidade, fertilidade, autonomia e, em determinadas situações, aumentar as possibilidades de diagnóstico precoce e tratamento eficaz.
É esse compromisso com uma medicina responsável, humana e baseada em informação que o Conexão Três Pontas destaca nesta entrevista.
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Roger Campos













































